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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sobre canarios e sabias



A dias atrás depois de uma decepção profissional, fui à casa de um amigo, aquele amigo que você pode contar com ele em todos os momentos da vida, então, durante a conversa de desabafo e descontração acabei revelando ao mesmo que tinha a pretensão em tentar alçar voo solo no emaranhado mudo dos negócios, nesse momento o meu amigo levantou silenciosamente e rumou-se para seu escritório que fica anexo à sala da casa, em pouco mais de um minuto ele retorna trazendo exatamente duas folhas de papel oficio impresso e solicitou que eu lesse, não me fiz de rogado, pois sei que partindo desse meu amigo sempre tem algo novo que podemos discutir, então vi que o texto tinha o titulo impresso em letras garrafais e em negrito “SOBRE CANÁRIOS E SABIÁS” .
Foi quando esse amigo me disse de canários e sabiás. Disse que o canário passa a vida numa gaiola maravilhosa, com comida e água em abundância, veterinário e todos os cuidados necessários para cumprir sua nobre função: ser bonito de ver e melhor ainda de ouvir. O canário canta e encanta. Onde existe um canário a vida é mais alegre. E eles são lindos, em vários tons de amarelo, branco, laranja…
Já os sabiás não servem para ser criados em gaiolas. Sabiás não são tão bonitos, as penas não são tão coloridas e seu canto não chega aos pés dos canários. Sabiás não são graciosos como os canários. E precisam lutar pela sobrevivência.
Mas em contrapartida, sabiás voam. E voam alto, pousam nas árvores que querem, vão para onde querem e levam a vida em total liberdade.
Nesse momento notei que meu amigo disse de maneira metafórica que eu vivia a fase de canário e que se tomasse a decisão de aventurar-me no mundo dos negócios, estaria indo em busca da tal liberdade do sabiá. Apenas concordei e confesso ter me impressionado e ter achado o conceito muito apropriado.
Então voltei para minha casa e comecei a analisar tal historia, e, com o tempo fui percebendo como é simplesmente verdadeiro.
Os jovens canários têm energia, paciência e curiosidade para suportar os limites impostos pela tal gaiola, a rotina do dia-a-dia, a obrigação de cantar sempre. Para o jovem canário, cantar é o objetivo da vida. E, quanto mais alto e mais melodioso for o canto, mais valioso ele será. Não importa se numa gaiolinha, gaiolão ou viveiro, eu quero é cantar!
Canto, portanto sou feliz.
Mas a maturidade traz outras prioridades. Cantar alto e melodioso deixa de ser objetivo para ser simplesmente uma consequência.
Sou feliz, portanto canto.
A maturidade mostra que, por mais técnicos e hábeis que sejamos, cantamos melhor quando estamos felizes. E a felicidade só é plena quando existe liberdade. Liberdade de pensar, de realizar. Liberdade de ser você mesmo sem precisar seguir os roteiros e padrões da comédia corporativa.
Para algumas pessoas eu, por exemplo, o atributo mais importante que desaparece com a maturidade no ambiente profissional é a paciência. (costumo dizer que estou me tornando chato, e reforço que estou amando ser chato).
Quanto mais experiência, menos paciência. O tempo passa a ser valioso demais para ser desperdiçado com os rituais exigidos pelo mundo corporativo.
Queremos resultados.
Queremos voar.
Ver o mundo de cima.
Queremos prazer.
Queremos crescer.
Queremos ousar.
Queremos… queremos e queremos.
A segurança da gaiola, os alimentos fartos, os cuidados médicos passam a ter um custo altíssimo: a liberdade cerceada.
Pois bem. Resolvi estou deixando de ser canário para virar sabiá.
Depois de anos trabalhando numa rotina infernal, abro a porta da gaiola que vivi cantando diuturnamente para enfrentar o mundo lá fora.
Será Meu voo solo.
Ao tomar essa atitude a primeira coisa que chega é aquele frio no estômago, sabe? Um misto de ansiedade com medo. Felizmente meu instinto de aventureiro pode fazer desse misto energia para serem queimadas durante as minhas aventuras pela vida que certamente me ensinarão a transformar tudo isso em resultado positivo ou simplesmente em aprendizado para fazer acontecer.
Quando se toma uma decisão dessas logo aparecem outros canários (e até alguns sabiás meio castigados) dizendo: cuidado! Lá fora o ‘trem’ é muito perigoso demais!
Outros sabiás, experientes e grandes voadores, me acolhem alegremente. Mas todos dizem: não é fácil!
No entanto, não tenho escolha. Meu destino é voar. Levei anos para preparar o voo, aprendendo a navegar, a planejar, a surpreender, a observar, a criticar, a inspirar. Reforcei as asas. E fiz minha cabeça.
Dentro de segundos lanço-me no espaço. Inebriado com a liberdade é provável que eu dê umas cabeçadas nos muros. Ou trombe com outros pássaros. Quem sabe passarei fome e frio até aprender a encontrar comida e abrigo.
Mas de uma coisa tenho certeza: quando eu estiver em pleno voo, lá no alto, olhando o horizonte e as copas das árvores com o vento no rosto e o calor do sol em minhas costas, sei o que passará por minha cabeça:
– Preciso encontrar e contar pros canários!

Adaptado de: Por Luciano Pires, no Café Brasil

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